Se.

Há algumas semanas eu fui assaltada. Plena luz do dia, aqui do ladinho de casa, enquanto esperava o ônibus para o trabalho. Havia mais umas dez ou doze pessoas no ponto, fora eu. Estávamos na frente de um hospital super movimentado. Eu respondia uns e-mails. O sujeito foi se aproximando, chegou a dois palmos de mim e mandou: passa o celular. Só o celular. Fiquei olhando um pouco atônita, ainda adormecida. O aparelho bem seguro entre os dedos.

– Quero só o celular.

Fiz que ia guardar na bolsa. O homem segurou meu braço, apertou. Era forte, estava em pé. Eu sentada, vulnerável. Pensei em gritar, mas a voz não saía. Ao meu lado, no ponto de ônibus lotado, olhares pouco comovidos com a cena. Certamente apanharia em público, sem ninguém que viesse em defesa e perderia algo mais que o aparelho velho com tele quebrada, poucas fotos que não pudesse recuperar. Soltei, boquiaberta. Meio besta fiquei ainda sentada olhando a rua, até que uma mulher que estava próxima vira pra mim e diz: ele roubou teu celular, foi?

Surreal. Foi a deixa que precisava para voltar pra casa, tomar um banho e peregrinar pelas lojas da operadora atrás de uma que me transferisse a linha para um chip novo.

Os subjuntivos e condicionais passaram o dia me atormentando, era como estar de volta às aulas de gramática francesa: Peut-être que. Talvez a mancha que me fez trocar a camisa fosse um sinal. Se eu tivesse acordado mais cedo, não teria perdido o ônibus de dez pras oito. E se não tivesse voltado e trocado os sapatos. Deixasse para tomar café na Câmara, não em casa. Ou quem sabe se tivesse logo tomado o ônibus para o terminal, ao invés de esperar a linha direta. Ou simplesmente parasse a compulsão pelos e-mails uma horinha só por dia, uma hora que fosse.

Já tinha até parado de pensar nisso, mas uma outra história me fez lembrar.

Todo dia, ao acordar, me empenho no trabalho de não cogitar. Dissolver as equações afetivas que insistem em que (Y – Tx) seja igual a (t . Y), onde “T” representa a tensão causada por x e “t” o tempo de relacionamento tranquilo com o sujeito Y. Fugir da matemática emocional perigosa, que nos leva a assumir que não foi uma incompatibilidade ou a falta de amor entre Y e a apaixonada A que levaram ao término previsível desde t = 0. Mas que em dado momento n < final da relação, alguma conduta qualquer de A tenha produzido o descenso da curva no gráfico.

Sem advogar em defesa da inevitabilidade do destino, coisa que estou um tanto longe de acreditar. Mas por que a gente insiste tanto em se responsabilizar pelo que foge ao nosso arbítrio? Se já soubéssemos mesmo, lá atrás, do ponto de inflexão de um episódio qualquer, por que não nos antecipamos? E ainda na possibilidade de um descuido eventual, de uma desatenção, de não termos sido suficientemente prevenidas, por que é tão fácil perder a mão entre a autocrítica e a penitência?

E se a gente consegue preencher linhas de tanta racionalidade, o que falta para simplesmente calar as vozes na cabeça?

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Dedo podre.

Estava distraindo a cabeça de um texto pesado que escrevia quando um amigo sugeriu em seu perfil de Facebook classificar os homens heterossexuais em três grandes grupos, arquétipos ideais possíveis: Uma larga maioria dos que só se relacionam com mulheres sexualmente; aqueles que buscam relações afetivas (amor e amizade) com mulheres, mas são incapazes de empatia plena; e um último grupo quase marginal dos legitimamente capazes de nos compreender.

Não é que eu tenha uma predisposição de discordar de assertivas masculinas referentes a nós, mulheres. Isso também. Mas pensando na minha experiência o esquema parecia insuficiente, ainda que se pretendesse generalizante. E pra tentar compreender o raciocínio exato que me incomodava, me propus a construir um esquema a partir do corpus a que tive acesso ao longo desses anos.

A verdade é que não sei se compactuo com essa ideia de separar os homens heterossexuais entre os capazes e os incapazes de se relacionar com mulheres. Não só porque a distinção sugere que haja algo de fisiológico onde existe misoginia, mas porque o subtexto deste dístico é a inabilidade das mulheres para escolher aqueles homens que prestam.

É o tal do dedinho podre.

Separar sensíveis e cachorrões não dá conta da vida real, justamente porque se baseia em uma falácia: a tal “essência feminina”, grande mito do patriarcado, à qual somente os homens mais evoluídos tenham a capacidade de se conectar. E ah, se os dramas hétero fossem só emocionais. No fundo de tantos destes machos sensíveis, quantos parceiros egoístas e sexualmente desestimulantes não habitam!

Mas vamos colocar o pé no chão, no que é material e mantém as relações afetivas e sexuais como relações de poder. E mesmo sob a pena de cair no reducionismo, queria propor um outro modelo. Separar os machos hétero em três grupos genéricos e que eventualmente encontrem intersecções: aqueles que chegam em casa e encontram a casa limpa, imensa maioria entre os homens adultos; os meninões, não necessariamente jovens, que vivem tranquilamente em meio à sujeira, parcela considerável da espécie, felizmente em geral transitória; e por fim as figurinhas cromadas, os raros homens que limpam o próprio banheiro e repartem a guarda das crianças fifty-fifty.

Haverá qualquer relação entre a realização de trabalhos domésticos consciente e voluntariamente e a capacidade afetiva de um homem? Ou pelo menos seu desempenho sexual, a atenção aos desejos da parceira? As amostras para a pesquisa ainda são parcas e não me arrisco mais com análises preliminares. De todo modo, parece uma hipótese que vale a pena testar.

Brevíssimo dicionário porteño.

Algumas notas sobre a língua falada em Buenos Aires, resultado de relacionamentos lost in translation e uma noite insone. Aberto a contribuições.

FONÉTICA:
y, ll /xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx/
ch /me dá um tchu, me dá um tcha, me dá um tchutchatcha tchutchutcha/
r—- /Rratinho-nho!!/
—r- /rr/
–rr- /rrrrrrrrrrrr/

NOÇÕES BÁSICAS DE GRAMÁTICA E SINTAXE:
Usted é um pronome para tratamentos formais e até considerado meio caipira por alguns jovens da capital. “Tu” não existe na gramática local. Para se camuflar, use “vos” (vôs, com o Ó grave).
– Donde sos [vos]?
– Soy de … y vos?
Hola! Prefira “Como andas?” a “qué tal?”.

Dale! Resposta afirmativa universal, demonstra compreensão. Para agradecer informações: “Dale! Muchas gracias”.
Ya está! Taí, é isso aí, prontinho, ok. “Ya está, dale!” (equivalente possível a “isso aí, valeu”).
Puede ser?
A ver… Resposta evasiva padrão, indagação (vamos ver…).
Tranqui, tranqui… (redução de “tranquilo/a”) Sossega aí, não se avexe.

VOCABULÁRIO ÚTIL
Auto = carro.
Boludo = bobo, babaca, escroto, a depender da entonação (evitar).
Boludez = imbecilidade, bobagem, besteira.
Canchera/o = gaiata/o. “Ponerse canchera/o”.
Chamuyo = paquera, papinho entre uma música do tango e outro.
Charla/ charlar = conversa, bater papo.
Corer (prouncia correr) = trepar.
Correr (pronuncia corrrrreerr) = correr.
Cubierto = talheres.
Despacio/ despacito = devagar, devagarinho.
Enojar/ Enojada/o = torrar a paciência, brava/o, de saco cheio. “No te enojes, nene”.
En un rato/ un ratito = em um piscar de olhos, em um minutinho.
Enchufar = botar na tomada.
Flaca/ flaquita = menina, gostosinha.
Igual = também. Substituir “yo también” e em início de frase, no sentido de “da mesma forma”.
Nena/e = menina/o, apelido carinhoso.
Olor = cheiro, odor.
Pegar = bater.
Pibe = cara.
Propina = gorjeta.
Protección = camisinha
Quedar/ quedarse = ficar, “donde queda” (onde fica), permanecer em determinado local, passar a noite. “Me quedo hasta el…” (fico até dia…).
Te quiero = te amo. Não vai sair dizendo por aí achando que tá seduzindo. Eles levam a sério, ó.
Tomada/o = bêbada/o (mais corrente que borracha/o)

Facebook:
Estar en facebook.
Enviar/ aceptar una invitación.
Subir algo al muro
= postar na timeline.
Le gustar algo = curtir.

Onda:
Ponerle onda = fazer graça, se divertir.
Buena onda = massa.
Mala onda = coisa ou pessoa chata, mala (“muy mala onda tu amigo”).

Ônibus:
Donde puedo tomar el bus? Tomar el (número do ônibus).
Bajar en…

Som:
Sonar/poner fuerte = alto.
Hablar más fuerte = falar mais alto.

Sim.

Aconteceu. A primeira das amigas de colégio casou há cerca de um mês em mega festa no clube da cidade. Docinhos monogramados, vestido de princesa e sapatos com cristal. Buquê disputadíssimo. Depois dela, outras cinco da mesma turma que já estão com o pé no altar. Chegaram os “vinte e”, os tempos de definição. De amadurecer ideias, rever convicções adolescentes e corrigir os ingênuos “nunca”.

Chegaram para elas e pra mim também. Assumi meu compromisso.

Eu comprei uma bicicleta.

Confesso, não foi meu ato mais altruísta ou passional. Foi um cálculo pragmático, estimulado pela oferta de 10 milhas para cada real gasto na compra e a nova localização residencial. Solução possível para a necessidade de locomoção barata e rápida para pequenos deslocamentos. E, evidente, incentivo de amigos cicloativistas.

Lembro que nas semanas entre a decisão pela mudança e o voo para Fortaleza, procurando apartamento pela internet, eu fantasiei. Me imaginava em uma daquelas fotos do Sartorialist, em roupas leves de alfaiataria, pedalando até o trabalho. A experiência do calor equatorial, a má condição das vias urbanas e as péssimas experiências sobre duas rodas me desmotivaram completamente.

Antes de finalizar a compra, me cadastrei no aplicativo de aluguel de bicicletas, só para testar. Fui à Beira Mar depois do trabalho, em um ponto tranquilo e seguro. Tirei a bicicleta do encaixe, vacilei para subir. Pensei em devolvê-la na hora e me demover da ideia toda. Mas a vergonha dos funcionários da sorveteria, que na minha cabeça me observavam pelo vidro, através da loja vazia, me fez insistir. Fui em direção ao Mucuripe e andei um bom tanto. Depois voltei e me dei um sorvete de presente. No dia seguinte, fui ao banco e depois ao cinema. De passagem por São Paulo, desci a Consolação, tomei o minhocão vazio e fomos até o samba da Santa Cecília.

Estou timidamente substituindo os ônibus e as solas dos sapatos, ainda fora de horário de rush, com bastante prudência, dando preferência para as ciclovias que estão florescendo por Fortaleza. E sempre durante o dia. Um quilômetro de cada vez. Morro de medo. Mas o sentimento de leveza e liberdade são incomparáveis, e caem bem com o friozinho no estômago.

Antes, eu tinha muitas dúvidas. Agora, se alguém me perguntar, entre casar e comprar uma bicicleta, a segunda opção parece muito melhor negócio.

Pelo direito à indulgência.

“Su naturaleza se negaba a aceptar que el propósito de ser de Adán y ella fuera tan sólo mecerse en la contemplación de aquella eternidad donde últimamente el sosiego se había trocado en una tensa espera, la mirada del Otro constantemente asediándola. La Serpiente se equivocaba pensando que al morder la fruta del árbol serían como Elokim. Dejarían de ser como Él. Se separarían. Harían la Historia para que habían sido creados”

(El infinito en la palma de la mano, Gioconda Belli)

A cozinha contemporânea, como as outras artes, abriga em si as contradições e traços do nosso tempo. A concisão dos espaços. A descontinuidade narrativa. A exaltação do banal cotidiano. Fragmentos, borrões, uma bagunça que justifique nossas cisões e conflitos interiores, resultado de nossa impossibilidade, incapacidade ou a inconveniência de fazer uma só coisa a cada vez.

Semanas atrás cheguei de mais uma viagem curta e exaustiva, morta de fome e com vontade da minha cama, na companhia da cerveja que me esperava na geladeira e uma nova maratona de Sex and the City. Antes de entrar no banho e vestir pijama, revirei a cozinha em busca de uma refeição rápida que harmonizasse bem com minha weissbier.

Como qualquer bom entendedor de cerveja — ou antes, conhecedor de bar — deve saber, cerveja acompanha basicamente alimentos à base de fritura. Tinha em casa um litro de óleo usado (talvez da vez em que fiz orelha-de-gato?) e duas batatas inglesas médias, mas nenhuma disposição de engordurar a cozinha recém faxinada e os cabelos que estava prestes a lavar. Então tentei uma composição de batatas rústicas com toque de contemporaneidade que, graças a deus, deu certo.

BATATAS URBANAS

ingredientes batata fritaPara a porção que alimenta uma pessoa gulosa, você precisará de duas batatas médias. Comprar das limpas no supermercado, porque a vida nas metrópoles não permite ficar esfregando terra de batata na pia. Passa só uma água, por desencargo de consciência, e não tire mais do que os “olhinhos” que forem feios demais. Não descasca! Um desperdício de alimento e trabalho humano. Cortar ao meio, de comprido, então fatiar cada metade em quatro ou cinco tiras nem grossas, nem finas.

Sobre os cortes de batata, que nesse momento devem estar dentro de um recipiente como um prato fundo ou bowl (gurmê para “tigela”), polvilhar um pouco de sal e umas ervinhas, como alecrim. Misturar bem. Em uma panela de tamanho adequado para acomodar tudo, jogar o óleo (novo ou reutilizado), as batatas temperadas e um ou dois dentes de . Fechar a panela com a tampa (muito importante!), ligar o fogo médio baixo e tomar banho. Ligue o exaustor se tiver um.batatas no óleo

O tempo médio de fritura das batatas pode ser calculado com base em um banho bem tomado (padrão brasileiro), lavagem de cabelo (curto) inclusa. Se tiver dúvidas ou não for tomar banho, a cor dos dentes de alho (marrom escuro) é um bom indicativo para saber se estão prontas ou não.

Depois de prontas e com o fogo desligado, retirar cuidadosamente as batatas do óleo fervente utilizando uma escumadeira ou uma pinça improvisada com dois garfos. Mantenha as batatinhas suspensas sobre a panela para escorrer o óleo, e então acomode-as gentilmente sobre papel toalha ou saco de pão, ou qualquer papel que absorva o excesso de gordura. Feche a panela e vá comer suas batatinhas fritas com cerveja. E mostarda. No dia seguinte, coe o óleo usado (com um coador/peneira fina) e tome nota para não usar essa gordura aromatizada para fritar doces. Particularmente, recomendo usar pequenas quantidades para fazer pipoca. O gosto ficou ótimo!

batata fritaEstou com a câmera no conserto e cozinho geralmente à noite, quando a luz é péssima. E sempre com fome. Espero compreensão com as fotos toscas.

Ele podia estar dormindo.

Passando os olhos distraidamente pela timeline há dois dias percebi uma imagem recorrente. Um menininho deitado na praia. Mais um meme, pensei. Mais uma criança fofa fazendo coisas fofas. Se escondendo na areia, brincando na praia. Me deu um quentinho no peito. Um carinho. Tenho pensado muito em filhos nos últimos dois anos. Não já, algum dia em futuro distante. Mas definitivamente sim, no plural.

Então cheguei no trabalho e abri o jornal. E no ritmo duro das linhas editoriais, muito menos fluido que os algorítimos que delimitam o alcance e incidência das nossas redes, aquela mesma foto, o mesmo menino deitado na beira da praia, olhou de novo pra mim.

Aquele menino acabou comigo. Aylan.

Aylan acabou comigo.

Não só ele.

Lembro uma praia feinha em Santa Catarina que frequentávamos porque a família tinha casas na cidade. Itajuba. Era um mar brabo. Pela manhã, a areia mal aparecia sob as algas trazidas do fundo. Flutuando soltas na água, elas abraçavam nossas pequenas pernas que tentavam a todo custo evitar os buracos. Era aflitivo.

Para quem vem da terra firme dar um mergulho, a perspectiva de ser tocada pelo mar é quase um insulto.

Não posso com aquelas fotos de Aylan, não posso com as ilustrações, com os poemas. Porque o choque cândido de uma morte de criança não consegue apagar da minha cabeça a praia de Itajuba. O volume de algas mortas, carregadas pelas ondas. Aquela massa disforme, escura, volumosa, manchando a costa branca. Um horror sem qualquer doçura, qualquer sutileza.

Mi Buenos Aires querido

“me jode confesarlo/ porque lo cierto es que hoy en día/ pocos/ quieren ser tango”

(“Bandoneón”, Mario Benedetti)

Há uns seis anos eu fui parar meio que por acaso em um curso de tango. Foi por essa época que voltei a Buenos Aires, em companhia de um amigo querido. Tínhamos um combinado antigo a cumprir, vontade de conhecer as milongas porteñas e uma promoção de passagens em frente a nós. E não tínhamos na época muitas contas pra pagar.

A lembrança do meu primeiro contato com a cidade, em 2007, não era lá muito boa. Viagem curta, sem planejamento, em ocasião de um sorteio que minha mãe ganhou. Mas adolescente nunca gosta de nada mesmo. Depois daquele outono em 2010 aconteceu um click dentro de mim. Baires (para os íntimos) é um lugar para onde sempre volto e quero sempre voltar. Onde vivi muitas histórias e digeri outras tantas. Onde me sinto em casa fora de casa.

Essa frequência e intimidade dá a muitos amigos a sensação de que tenho muito a dizer sobre a capital argentina e sou das primeiras pessoas que consultam ao planejar visitar a cidade. A verdade é que sempre fiz a linha turista flaneur, que vira e mexe encontra um lugar encantador ao se perder por não saber ler o mapa, mas em geral, esquece nome e localização.

Isso até que um dos zilhões de programas de fidelidade em que estou inscrita resolveu dar pontos por resenhas publicadas e eis que surge meu perfil no tripadvisor (dá uma moral!) e uma nova experiência turística, consciente e ordenada. Pelo menos um pouquinho. Aí resolvi trazer pro blog alguns compilados de viagem, pra não ter mais desculpa e enrolar a vida quem me pede informações. Evidente que tem alguns segredinhos que, por enquanto, só no tête-à-tête.

tango

LA VIDA ES UNA MILONGA Y HAY QUE SABERLA BAILAR

Porque é triste demais estar sentado enquanto todo mundo toma a pista.

Apesar de compartilhar com Montevideo a história e origem do tango (porteño, aliás, se refere às duas cidades portuárias no Rio de La Plata), a impressão que tenho é que Buenos Aires respira o ritmo de um jeito diferente. É como se conhecer esses códigos — que são muito mais que passos — ter consciência desse conjunto de movimentos e posturas e subtextos, te abrisse um mundo na cidade para além dos bailes.

Estar em Buenos Aires e não entrar em contato com o tango (e isso é exatamente o oposto das grandes casas de show com churrasco pra turistas, ou tirar foto com chapeuzinho no Caminito) é perder a essência da cidade. É quase nem ir. E para aqueles que não sabem nem por onde começar, eu resolvi criar um pequeno roteiro.

Para quem já dança e para quem não dança, há muitas casas que, antes do baile, oferecem aulas para iniciantes e iniciados a preços baixos (em geral, o ingresso da milonga contempla a aula e fica entre 50 e 70 pesos). Há um site maravilhoso chamado Milonga Hoy que indica todas as milongas do dia, se haverá aula ou não, se é paga ou gratuita. Em geral a vida em Buenos Aires começa bem tarde (ou bem cedo na madrugada), então vale a pena, depois de acordar da soneca de fim de tarde, conferir se há algo bom pra fazer. Pensei um pouco antes de sugerir alguns endereços que eu gosto e que ilustram a diversidade e vida do tango argentino hoje:

La Viruta — aberta praticamente todos os dias, a Viruta é a milonga por excelência. Sempre lotada, o espaço pra dançar é reduzidíssimo, o que favorece quem caminha bem e abraça gostoso (e, afinal, precisa de mais que isso no tango?), sem muitos artifícios. O salão reúne de iniciantes a super profissionais. Lá pelas quatro da manhã, a pista enche novamente com os egressos das milongas vizinhas. É uma energia, ganas de bailar hasta que rompan los zapatos, que justifica toda a fama do lugar. No site há a grade completa de clases (não só de tango) e costumam receber ótimos professores! | Armenia 1366

La Bicicletao local tem acesso fácil pelas ciclovias de Palermo e estacionamento para as bikes no jardim. Começou como uma prática descontraída de jovens milogueiros que iam de bicicleta dançar, de onde veio o nome. Acontece toda segunda-feira e é uma das milongas mais buena onda da cidade, reunindo gente de todo canto do mundo, de diferentes níveis de habilidade. Os vários sofás ao redor da pista contribuem pra um ambiente confortável, de conversas com desconhecidos que viram danças e amizades. As fofas Nati e Juli comandam a aula para iniciantes. Nunca fiz, mas já cheguei cedo e pude assistir um pedacinho. | Gorriti 5417

El Yeite “para llegar hasta el cielo hay que cruzar el infierno”, me disse uma sueca com sotaque irrepreensível na porta do número 4175, Avenida Cordoba. Atravessamos um longo salão escuro onde muitos corpos se encoxavam ao ritmo de bachata e subimos uma escadinha para chegar à milonga. Pista boa, não muito cheia e música excelente. O Yeite é daqueles clubes de tango dos jovens bonitos que dançam muito bem. Quem já dança, tem que provar. Para quem tá começando, há opções mais interessantes para as noites de quinta. | Cordoba 4175

Salon Canning — um salão lindo, que recebe apresentações de grandes nomes do tango, dançando ou tocando (a orquesta Color Tango é quase de casa!) e pertinho do subte Scalabrini Ortiz. Só isso, com um copo de fernet-cola na mão, já faz a noite. Pra quem dança, o Canning é sede de algumas das melhores milongas da cidade, como a SoHo Tango (Jueves) e Parakultural (Lunes y Viernes). Fica a poucas quadras da Viruta, onde é de praxe pena esticar a noite, dançar mais um tanto e esperar as padarias abrirem para comer uma medialuna fresquinha antes de voltar pro hotel e se afundar na cama. | Scalabrini Ortiz 1331

El Beso — um lugar plural. Nos tradicionalíssimos Martes de Cachirulo, homens e mulheres ocupam lados opostos do salão e se cabecean para dançar. Nas sextas-feiras, o clube ferve com a Marshall, milonga queer. Tem que conhecer! | Riobamba 416

La Glorieta — nos finais de tarde dos finais de semana, a glorieta do parque Belgrano recebe uma prática de tango pra lá de charmosa. Mesmo num frio desgraçado do inverno, o tango resiste. Só não acontece se chover. | Parque Belgrano

Sunderland — o tango começou assim, com vizinhos organizando uma quadra esportiva para receber a orquestra que passava pela cidade e dançar ao som de tango e jazz. Ainda hoje, nos subúrbios de Buenos Aires, vários clubes mantêm  milongas regulares, com comida caseira gostosa e barata, frequentadas sobretudo por moradores da região, gerações de famílias que se conhecem e dançam juntas há muitos anos. Aos sábados, no Sunderland acontece a milonga Malena, que além de um clássico de Troilo, é o nome da filha dos organizadores. Um pouco difícil de dançar, por se tratar de uma reunião de conhecidos de longa data, mas com apresentações sempre incríveis. Como esta, há outras milongas do tipo. Ficam longe que é o diabo e às vezes são um pouco frias no inverno, mas vale a experiência. | Lugones 3161